terça-feira, 28 de junho de 2011

Me dá a mão?

"Meu Deus me dá a mão (...) Me cura de ser grande..."
[Trecho poema Orfandade - Adélia Prado]


Queria sim como Adélia quis meus cinco anos de volta, pois ele fora furtado de mim, por um ladrão do qual não sei o nome nem endereço, que me deixou apenas um longínquo saudosismo para evocar em algum tempo.

Aquela época a minha casa cheirava flor de laranjeira, com frutas de cada estação, disponíveis ao estender de uma mão, naquele tempo não conhecia o medo e a incerteza que constantemente insistem em me cercar.

Lembro que eu era levada de bicicleta para a escola, e enquanto o vento batia forte em meu rosto, minha mãe gritava: - Não põem seus pés perto da roda FERNANDA, eu sabia do perigo constante mas colocava para provocar, ou para sentir seu cuidado...

Quando ousei levar uma escova de cabelo que não era minha para casa, mamãe fez eu devolvê-la com toda a solenidade na frente de todos, para que eu nunca esquecesse que o que não é nosso agente não se apropria.

Simples tudo foi simples e dado em pequenas quantidades (parecia que propositalmente para que dessemos o devido valor para o que tínhamos).

Não sentia vergonha nos meus cinco anos de nossa simplicidade (nem a sinto hoje), me carregavam para cima e para baixo independente de minha vontade, meu pai as vezes estava sujo de um dia trabalhado, mas quem ligava?, o que eu sentia era ORGULHO, aquele de saber que se tem um herói em casa.

Sempre que ele chegava em casa eu dizia: - Pai, trouxe um doce??, se trouxesse ótimo, se não eu continuava amando-o, pois sabia que meu doce não era nada perto do que o amor que ele sentia podia mover.

Nunca caíram sobre mim chuvas de EU TE AMO, por parte de meus pais, mas eu sentia que de alguma maneira as palavras eram substituídas por atitudes que demonstravam em maior grandeza o amor.

Era bom quando em qualquer dia da semana íamos visitar minha Nona, e fazíamos aquele café permeado de "cuecas viradas", o tão cobiçado doce de abobora da vovó e demais coisas engordantes.

Engraçado mas não tinha tic-tac, agenda, compromisso com nada nem ninguém. O que a vida mandava eu topava.

Ao chegar no fim desse post, percebi que poderia ficar muito tempo escrevendo o quanto aquele tempo marcou. Claro que existe um incitamento muito grande de sempre enfeitar nossa infância com as mais lindas cores. Mas diante de um mundo tão fluído de relações humanas sinceras...

é necessário buscar algo que nos de a mão como clamou Adélia ou evocar no arquivo morto do nosso lobo temporal aquilo que nos fez e ainda faz felizes, mesmo que por raros momentos ;)

Hoje finalizaria "Orfandade" assim:
Me cura da dissonância de viver perdida no vazio. E na crendice que um dia tudo vai se abster de um fim!!

2 comentários:

  1. Que bonito texto! Queria lembrar de minha infância assim. Será que estou velho?!

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  2. Gaspar em algum lugar deve estar pois como dizia Caio F. Abreu:
    "Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê".

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